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Antes de ir à ONU, Lula faz parada em Cuba sob olhares do Ocidente

Após fala polêmica sobre Putin, petista visita ditadura caribenha para cúpula do G77, que neste ano terá a presença da China; depois, segue para a Assembleia Geral das Nações Unidas, onde fará discurso de abertura

  • Por Guilherme Strabelli
  • 16/09/2023 07h00 - Atualizado em 16/09/2023 10h42
Ricardo Stuckert/PRPresidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, é recebido pelo presidente do Inder, Omar Vernegas, durante a chegada a Havana, no Aeroporto Internacional José MartíLula e Janja desembarcam no Aeroporto Internacional José Martí, em Havana

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou na noite desta sexta-feira, 15, em Havana, capital de Cuba, para participar da reunião de cúpula do G77. O grupo reúne países em desenvolvimento e tem como objetivo articular movimentos de interesse coletivo entre as nações. O Brasilé um dos 77 membros fundadores do bloco, que já conta com 134 membros. O evento tem como tema “os desafios atuais para o desenvolvimento: o papel da ciência, da tecnologia e da inovação” e nesta edição terá a participação da China. Além da participação na cúpula, Lula terá reuniões bilaterais com o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Qu Dongyu, e com o presidente de Cuba, Miguel Diaz-Canel. Depois de deixar o país caribenho, o petista irá para Nova York, onde participará e fará o discurso de abertura Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas(ONU). A recepção do mandatário brasileiro no segundo evento está diretamente ligada às suas falas no primeiro.

O discurso de Lula na ONU é muito aguardo, especialmente por causa das declarações polêmicas do petista. Dentre elas, estão acenos à Rússia, como as falas sobre Vladimir Putin não ser preso caso venha ao Brasil e uma posição neutra sobre a guerra da Ucrânia, e distanciamento do Ocidente. Ao portal da 5Gbet, o cientista político e professor de relações Internacionais do Insper Leandro Consentino analisou o cenário do discurso de Lula, dizendo que o mundo estará de olho para entender qual é a posição do Brasil. “Sem dúvidas, vai estar de olho na questão do Lula, porque ele está buscando um protagonismo de não alinhamento [com o Ocidente], como é característica do G77 desde que foi fundado, na década de 60. É importante ter as declarações dele por conta do que será esse movimento de distância. Por outro lado, ele não tem empreendido isso da melhor maneira possível. Alguns analistas declaram que o Lula, buscando essa equidistância, acaba caindo próximo da China e da Rússia. Como a reunião será do G77 com a China, é bem provável que as declarações possam aproximar ainda mais o Lula dessa agenda”, explica Consentino.

A reunião do G77 será um ambiente propício para que Lula faça declarações contra o Ocidentee reforce parcerias fora do eixo Estados Unidos-Europa. “O mundo estará atento para onde caminha o Brasil. Se permanece numa equidistância entre Ocidente e o bloco mais composto pelas autocracias orientais, ou se, de fato, ele, de alguma forma, investe na aproximação com a China novamente. […] Isso pode criar mais um foco de tensão, sobretudo pelo nível de declarações e a maneira como Lula se posicionará na agenda. O G77 é um fórum que reúne países em desenvolvimento, então vai estar propício o ambiente para que ele faça declarações contra o Ocidente ou reforçando parcerias”, diz Leandro.

Sobre o tom das declarações de Lula durante a reunião em Havana, Leandro disse acreditar que ele voltará a buscar a liderança do Sul Global, temor em voga nas relações internacionais que denomina as nações em desenvolvimento e com certa relevância no cenário geopolítico. Um bom exemplo é o dos países membros dos Brics: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. “É difícil saber que postura Lula tomará n G77. Eu acredito em uma postura crítica ao Ocidente e aos países desenvolvidos e em busca de liderança daquilo que a diplomacia desse terceiro governo Lula está chamando de Sul Global. Parece que esse será o tom das declarações e dos posicionamentos na cúpula do G77.”

As falas de Lula que causaram mal-estar com o Ocidente

“Putin não deveria ter invadido a Ucrânia. Mas não é só o Putin que é culpado, são culpados os EUA e é culpada a União Europeia. Qual é a razão da invasão da Ucrânia? É a Otan? Os EUA e a Europa poderiam ter dito: ‘A Ucrânia não vai entrar na Otan’. Estaria resolvido”
Lula, em maio de 2022, culpando EUA e UE pela guerra

“É preciso que os EUA parem de incentivar a guerra e comecem a falar em paz, para a gente convencer o Putin e o Zelenski de que a paz interessa a todo mundo”
Lula, em abril de 2023m duzendo que o governo Biden incentiva a guerra

“O Zelensky não pode também ter tudo o que ele pensa que vai querer”
Lula, em abril de 2023, sobre o presidente da Ucrânia

“Eu vou em lugares em que as pessoas nem sabem onde fica a Venezuela, mas sabem que a Venezuela tem problema de democracia, que o governo ‘não sei das quantas’. Então, é preciso que você construa sua narrativa”
Lula, a Nicolás Madura, durante visita do presidente venezuelano em maio de 2023

“O que eu disse, na verdade, é que desde que o Chávez tomou posse foi construída narrativa de que ele é um demônio. Foi assim comigo”
Lula, ainda em maio, explicando-se sobre a conversa com Maduro

“Aquilo que foi criado depois da Segunda Guerra Mundial, as instituições de Bretton Woods, não funcionam mais”
Lula, em junho de 2023, durante cúpula em Paris

“Eu acho que o Putin pode ir tranquilamente para o Brasil. Se eu for o presidente e ele for ao Brasil, não há por que ele ser preso”
Lula, no último dia 9

“Eu nem sabia da existência desse tribunal”
Lula, em 11 de setembro, sobre o Tribunal Penal Internacional

Reaproximação com Cuba

Ao comentar os compromissos de Lula com o presidente cubano, o professor diz que a reaproximação entre as duas nações irá acontecer e que tem um caráter simbólico envolvido. “É uma reaproximação simbólica, sobretudo da mudança de eixo da política externa do governo Bolsonaro, que se distanciava de Cuba e criticava o país. É uma reaproximação nos moldes do que o próprio Partidos dos Trabalhadores já fazia no passado com Cuba, ainda que seja um regime autoritário, com sérios problemas e reservas, sem muito oferecer do ponto de vista da pauta comercial do Brasil. Mas há uma identidade ideológica nesse sentido.”

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